O esporão calcâneo é uma formação óssea que se desenvolve no calcâneo, osso localizado no calcanhar, podendo variar de tamanho. Seu surgimento está geralmente associado à sobrecarga mecânica repetitiva na região, sendo comum em indivíduos que permanecem longos períodos em pé, realizam atividades de impacto ou apresentam alterações biomecânicas nos pés.
De acordo com sua localização anatômica, o esporão calcâneo pode ser classificado em dois tipos: esporão calcâneo dorsal, que se forma na região posterior do calcâneo, e esporão calcâneo plantar, localizado na face inferior do osso, na sola do pé.
O calcâneo é o maior osso do pé e desempenha papel fundamental na sustentação do peso corporal e na manutenção do arco plantar. Ele apresenta íntima relação com a fáscia plantar, uma estrutura fibrosa e resistente que se estende do tubérculo medial do calcâneo até as falanges proximais, sendo responsável pela absorção de impactos e pela estabilidade do pé durante a marcha. A sobrecarga contínua dessa estrutura pode levar a alterações degenerativas, dor local e, ao longo do tempo, contribuir para a formação do esporão calcâneo.
Embora o esporão calcâneo esteja frequentemente associado à dor no calcanhar, evidências científicas demonstram que ele nem sempre é o principal responsável pelos sintomas, sendo a fascite plantar (ou fasciopatia plantar) a condição mais comumente relacionada ao quadro doloroso. Em muitos casos, o esporão representa apenas um achado radiográfico, podendo estar presente inclusive em indivíduos assintomáticos.
|
|
Fatores associados ao desenvolvimento do esporão calcâneo
O esporão calcâneo surge, na maioria das vezes, em decorrência da sobrecarga mecânica e de alterações degenerativas na região do calcanhar. Entre os principais fatores associados, destacam-se:
- Tração repetitiva da fáscia plantar e microtraumas: A tração contínua da fáscia plantar em sua inserção no calcâneo pode provocar microlesões, estimulando a formação óssea como resposta adaptativa ao estresse mecânico.
- Atividades de alto impacto e sobrecarga funcional: Corrida, saltos e exercícios com cargas repetitivas aumentam o estresse mecânico sobre a fáscia plantar e o calcâneo, favorecendo microtraumatismos.
- Excesso de peso e obesidade: O aumento do peso corporal eleva a pressão plantar e a carga exercida sobre o calcâneo, favorecendo lesões por esforço repetitivo.
- Alterações do arco do pé e biomecânica anormal: Indivíduos com pés planos (arco baixo), pés cavos (arco alto) ou padrões anormais de pisada tendem a apresentar distribuição inadequada das forças durante a marcha, aumentando a tensão sobre a fáscia plantar.
- Envelhecimento: Com o avanço da idade, ocorre redução da elasticidade da fáscia plantar e atrofia da almofada adiposa plantar, fatores que aumentam o estresse tecidual e podem predispor ao surgimento do esporão.
- Uso de calçados inadequados: Calçados sem suporte adequado, especialmente durante longos períodos em pé ou atividades de impacto, aumentam a tensão na fáscia plantar e o risco de dor no calcanhar.
- Fatores estruturais e genéticos: Alguns indivíduos podem apresentar predisposição genética à formação de esporões ósseos em resposta a estímulos mecânicos repetitivos.
- Doenças inflamatórias sistêmicas (menor associação): Condições como as espondiloartrites podem estar associadas à dor no calcâneo, especialmente quando há entesopatias, embora não sejam a causa mais comum do esporão calcâneo.
|
Sintomas
Os esporões calcâneos nem sempre causam dor. Quando presentes, os sintomas geralmente se manifestam na região plantar do calcanhar e são semelhantes aos observados na fascite plantar. Os principais sinais e sintomas incluem:
- Dor na planta do calcanhar, especialmente à palpação, podendo irradiar para a sola do pé;
- Dor mais intensa nos primeiros passos pela manhã ou após períodos prolongados de repouso;
- Melhora gradual da dor com atividade física leve, à medida que o pé “aquece”;
- Retorno ou piora da dor ao final do dia, sobretudo após longos períodos em pé ou caminhando;
- Desconforto após repouso prolongado, como ao levantar após permanecer sentado;
- Agravamento dos sintomas com atividades de alto impacto, como corrida, saltos ou exercícios realizados descalço;
- Sensibilidade local no calcanhar, podendo dificultar o apoio completo do pé no solo.
A intensidade dos sintomas pode variar de acordo com o nível de sobrecarga, o tipo de atividade realizada e as condições biomecânicas individuais.
|
Tratamento
O tratamento do esporão calcâneo é indicado principalmente quando há dor associada à sobrecarga e às alterações degenerativas dos tecidos adjacentes, geralmente relacionadas à fascite plantar. Na maioria dos casos, os sintomas podem ser controlados com tratamento conservador, sendo a abordagem inicial recomendada.
As principais opções terapêuticas incluem:
- Repouso relativo e aplicação de gelo: Auxiliam na redução da dor e do desconforto, especialmente nas fases iniciais dos sintomas.
- Medicamentos anti-inflamatórios: Devem ser utilizados somente sob prescrição e orientação médica, considerando as condições clínicas do paciente e possíveis contraindicações. Quando indicados por curto período, podem contribuir para o controle da dor.
- Fisioterapia: Desempenha papel fundamental no tratamento, atuando na redução da dor e na correção dos fatores causais. Inclui exercícios terapêuticos e alongamentos específicos para a fáscia plantar, musculatura da panturrilha e estruturas do tornozelo, além de fortalecimento muscular, melhora da mobilidade articular e reeducação da marcha. Recursos como terapia manual, liberação miofascial, eletroterapia e orientações posturais podem ser utilizados conforme a necessidade de cada paciente.
- Infiltrações com corticosteroides: Podem ser consideradas em casos refratários ao tratamento conservador, proporcionando alívio temporário da dor, devendo ser utilizadas com cautela e indicação médica criteriosa.
- Tratamento cirúrgico: A cirurgia para retirada do esporão é considerada excepcional e indicada apenas como última alternativa, uma vez que a maioria dos pacientes apresenta melhora significativa com abordagens conservadoras. O foco do tratamento deve estar no controle da dor, na redução da sobrecarga mecânica e na correção das alterações biomecânicas, e não necessariamente na remoção do esporão ósseo.
|
Referências
- BUCHBINDER, R. Plantar fasciitis. New England Journal of Medicine, Boston, v. 350, n. 21, p. 2159–2166, 2004.
- HICKS, J. H. The mechanics of the foot: II. The plantar aponeurosis and the arch. Journal of Anatomy, London, v. 88, p. 25–30, 1954.
- IRVING, D. B.; COOK, J. L.; MENZ, H. B. Factors associated with chronic plantar heel pain: a systematic review. Journal of Science and Medicine in Sport, Sydney, v. 9, n. 1–2, p. 11–22, 2006.
- LEMONT, H.; AMMIRATI, K. M.; USEN, N. Plantar fasciitis: a degenerative process (fasciosis) without inflammation. Journal of the American Podiatric Medical Association, Bethesda, v. 93, n. 3, p. 234–237, 2003.
- ROMPE, J. D. et al. Plantar fasciopathy: evidence for diagnostic and therapeutic approaches. Deutsches Ärzteblatt International, Berlin, v. 106, n. 14, p. 227–233, 2009.
- THOMAS, J. L. et al. The diagnosis and treatment of heel pain: a clinical practice guideline – revision 2010. Journal of Foot and Ankle Surgery, New York, v. 49, n. 3, p. S1–S19, 2010.
- WHITTAKER, G. A. et al. Plantar heel pain: a best practice guide informed by a systematic review, expert clinical reasoning and patient values. British Journal of Sports Medicine, London, v. 53, n. 5, p. 260–272, 2019.